Transponder do jato Legacy foi desligado sem querer

Fonte: FOLHA DE SÃO PAULO 01/03/07

Transponder do jato Legacy foi desligado sem querer, diz FAB.

Comissão de inquérito da Aeronáutica concluiu que americanos confundiram o aparelho anticolisão e o rádio do Legacy. 

Joe Lepore e Jan Paladino teriam digitado os códigos de freqüência do rádio no transponder, prejudicando o funcionamento de ambos. 

A comissão de inquérito da Aeronáutica que investiga as causas da queda do Boeing da Gol em 29 de setembro do ano passado concluiu que os pilotos americanos Joe Lepore e Jan Paladino desligaram involuntariamente o transponder do jato Legacy que se chocou com o avião, confundindo esse aparelho e o rádio. Os dois ficam dentro da mesma "caixa" do painel de controle. 

Conforme a Folha apurou, os pilotos teriam digitado os códigos de freqüência do rádio no transponder e, assim, prejudicado o funcionamento de ambos. O erro apontado pode explicar por que tanto o transponder estava inoperante quanto o rádio não funcionava adequadamente quando ocorreu o choque entre os dois aviões, em pleno ar, resultando na morte de 154 pessoas. 

Mais de 20 tentativas de comunicação com o controle em terra foram em vão, porque, segundo as investigações, a freqüência de rádio estava errada e o transponder desligou depois de duas tentativas de inserção de códigos não reconhecidos pelo aparelho. 

A digitação equivocada pode ter sido possível porque os pilotos não estavam devidamente preparados para pilotar o Legacy em sua primeira viagem ao sair da fábrica da Embraer em São José dos Campos (SP). Além disso, o rádio e o transponder ficam na mesma "caixa" do painel, entre o piloto e o co-piloto, e são parecidos. 

Com o erro, o transponder ficou inoperante e imediatamente apareceu ao lado direito, em frente à poltrona do co-piloto Paladino, sem que ele se desse conta, a mensagem "TCAS off", informando que o TCAS (Traffic Allert and Collision Avoidance System, ou sistema anticolisão) se encontrava desligado. 

Acionado pelo transponder, o TCAS evita acidentes com alertas visuais e sonoros aos pilotos, acompanhados da indicação de como eles devem agir, desviando o avião na horizontal e na vertical. 

Conforme a gravação das conversas entre Lepore e Paladino, na caixa-preta do Legacy, um deles reagiu com surpresa ao perceber, depois do choque com o Boeing, que o sistema anticolisão estava desligado. 

"Cara, você está com o TCAS ligado?", pergunta. O outro admite: "É. O TCAS está desligado". Cerca de dois minutos depois, o aparelho voltou a funcionar, com o transponder enviando sinais normalmente para os centros de controle de tráfego aéreo em terra. Isso indica que foi religado. 

Resolvido o último grande mistério do acidente, a comissão poderá antecipar de setembro para agosto o anúncio oficial do resultado das causas do choque, confirmando as informações sobre a seqüência de falhas humanas, tanto dos pilotos quanto dos controladores de vôo, especialmente do Cindacta-1, de Brasília, que resultaram no maior acidente da história da aviação comercial brasileira. 

O Comando da Aeronáutica afirma que não influencia conclusões nem prazos para a finalização do inquérito, mas a Folha apurou que vê com bom grado a antecipação do anúncio. Acha que isso poderá tirar um dos focos de tensão dos controladores de vôo, que desde o acidente têm se rebelado contra o Comando e promovido uma série de operações-padrão e greves, na tentativa de denunciar falhas do sistema de controle aéreo. 

Caso seja confirmada a apuração de que os pilotos digitaram erroneamente os códigos do rádio e do transponder, isso aliviará, por exemplo, a importância no acidente da existência apontada por controladores de vôo de um "buraco negro" na região onde ocorreu o choque, em Mato Grosso, na altura da serra do Cachimbo. 

O relatório deverá mostrar que, apesar de não conseguir contato com o Legacy, os Cindactas tanto de Brasília quanto de Manaus tinham comunicação normal com outras aeronaves na mesma hora e no mesmo espaço, que é sujeito a interferências magnéticas. 

Brasília - Eliane Cantanhêde: A peça que faltava 

BRASÍLIA - Cai o último grande mistério da queda do Gol 1907: os pilotos Joe Lepore e Jan Paladino desligaram involuntariamente o transponder, aparelho que, se operante, teria salvado 154 vidas. O Legacy era novo, acabava de sair da Embraer. Lepore tinha pilotado aviões semelhantes, e ele e Paladino haviam treinado em simuladores, mas a caixa-preta mostra que tinham pouco conhecimento do aparelho, das regras de aviação no Brasil e até da carta aeronáutica. 

Um dos dois confundiu o rádio e o transponder e digitou códigos de freqüência no transponder. Resultado: o rádio não recebia nem transmitia ligações para os controles em terra, e o transponder desligou. Um erro fatal. E só depois do choque os pilotos se deram conta. 

A queda do Gol 1907 é uma seqüência inacreditável de falhas humanas e de coincidências. Os pilotos e o controlador de São José dos Campos (origem do vôo) não se entenderam, e o Legacy seguiu numa só altitude, quando o plano de vôo previa três. Os controladores de Brasília tiveram tempo para corrigir o erro, mas estavam distraídos. Era hora da troca de turno. 

Depois, houve várias tentativas inúteis de contato por rádio. Nem os pilotos digitaram o código de falta de comunicação nem os controladores acionaram o Cindacta-4, de Manaus, para que desviasse o Gol -que costumava voar em 41 mil pés, não em 37 mil, como naquele dia. E o choque foi num ponto em que o Legacy saía do Cindacta-1 para o 4, e o Boeing, o contrário. 

Mesmo com todas essas falhas e coincidências, o acidente teria sido certamente evitado caso o transponder estivesse acionado. Não estava, e houve o maior acidente da história da aviação civil no Brasil, com todas as suas conseqüências. Com o fim do mistério do transponder, a comissão aeronáutica deve anunciar suas conclusões já no próximo mês. E aí começa uma outra guerra, a judicial. 

"Possibilidade é muito genérica", diz advogado 

COLUNISTA DA FOLHA 

Ouvido ontem pela Folha, o advogado Theo Dias, que representa os pilotos Joe Lepore e Jan Paladino e a empresa proprietária do avião Legacy, a americana ExcelAire, afirmou que precisava de mais detalhes antes de se manifestar sobre o desligamento involuntário do transponder (aparelho anticolisão e que permite comunicação precisa com radares em terra). 

"Até o presente momento, essa possibilidade [do desligamento involuntário do sistema anticolisão] é muito genérica, sem amparo em dados consistentes. Prefiro aguardar as informações oficiais antes de me manifestar", afirmou ele, por telefone. 

Os pilotos Lepore e Paladino e quatro controladores de tráfego aéreo foram denunciados pelo Ministério Público Federal em maio passado, acusados de terem agido com negligência e irresponsabilidade no episódio do acidente envolvendo o avião da Gol e o Legacy. 

O choque entre as duas aeronaves, em setembro de 2006, provocou a morte de 154 pessoas .